O governo Bolsonaro acabou?

Foto: Isac Nóbrega/Agência Brasil

O governo Bolsonaro acabou?*

1 – A eleição

Para vencer a eleição presidencial de 2018 Bolsonaro enfrentou de tudo: escassez de tempo de propaganda nos meios tradicionais de rádio/TV, falta de estrutura partidária, parcos recursos financeiros (sendo, de longe, a campanha presidencial mais barata da história do Brasil, recorde que dificilmente será quebrado), oposição total por parte dos conglomerados de comunicação, tentativa de homicídio (a qual o privou de participar de praticamente todo o processo eleitoral), e outras adversidades menores.

Com a vitória de Bolsonaro parecia que se havia quebrado a espinha dorsal de um sistema amplamente odiado pelo povo brasileiro. Em primeiro lugar porque foi eleito sem precisar fazer concessões aos setores espúrios da política partidária, conhecida popularmente como “Centrão”, que conta em seus quadros com nomes já conhecidos como Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Renan Calheiros, e alguns novatos que surgiram com o processo de impeachment de Dilma, como Kim Kataguiri, e com alguns ex-aliados do presidente, como Joice Hasselmann.

Segundo porque mesmo dentre aqueles que se opõem a Bolsonaro há também o sentimento de rejeição a instituições como Congresso Nacional, Judiciário (simbolizado principalmente pelo STF), imprensa (principalmente os grandes canais), as forças que pareciam ter sido (ao menos em parte) derrotadas com a vitória de Bolsonaro.

Tanto é assim que alguns dos ministros mais próximos ao presidente, como Guedes e Moro, contavam com ampla aprovação da população.

2 – O primeiro ano de governo

Já no primeiro ano de mandato parecia que o governo conseguiria colocar o país rumo à recuperação. Na economia: aprovação da reforma da previdência, queda da inflação, corte de juros. Na segurança: queda da ordem de 20% dos crimes violentos. Na infra-estrutura: portos, aeroportos e ferrovias concedidos com sucesso, estradas que estavam há anos para serem asfaltadas (por exemplo, BR 163) finalmente ficando prontas. No campo social: avanços na proteção a vulneráveis (principalmente crianças).

Não foi, porém, um início sem percalços. Ainda no primeiro semestre foi necessária uma troca de comando na pasta da educação. O vice-presidente, Mourão, não perdeu uma oportunidade para tentar puxar o tapete de Bolsonaro e assumir seu lugar (inclusive durante o período eleitoral). Então aliados do PSL como Bivar e Bebbiano (falecido esse ano) romperam com o presidente, levando consigo boa parte dos deputados que haviam sido eleitos com o nome de Bolsonaro.

​Parecia, no entanto, que as derrotas haviam sido significativamente menores que as vitórias. Por essa razão, inclusive, a imprensa tentou esvaziar ao máximo o impacto do presidente nestas vitórias. Economia avançou? Palmas para Guedes. Criminalidade diminuiu? Palmas para Moro. Eis a estratégia da imprensa: enaltecer os ministros subordinados para tirar o mérito do presidente que os apontou, tentando criar a imagem de um presidente bestalhão que apenas atrapalhava os progressos que sua equipe técnica conseguia.

3 – O início do fim?

No entanto, após um início animador em 2020 parece que Bolsonaro perdeu as rédeas da situação. O evento catalisador dessa situação foi a pandemia causada pelo vírus chinês (COVID-19). A essa altura todos estão cientes da responsabilidade do Partido Comunista Chinês (o único daquele país) neste problema que assola o mundo todo. No Brasil, no entanto, parece que esses efeitos estão menos atrelados ao vírus em si.

Embora, numericamente, o Brasil não esteja entre os países com grande número de pessoas atingidas pelo vírus (além dos números totais vale lembrar que temos a quinta maior população do mundo), parece ser um dos mais afetados em seus efeitos colaterais.

Bolsonaro adotou desde o princípio um discurso contra o isolamento total (assunto que não iremos abordar, pois já conhecido), alertando para os nocivos efeitos sociais, econômicos e políticos desta medida. Sociais, por causar sentimentos como ansiedade, pânico, histeria e depressão. No Reino Unido e nos Estados Unidos as autoridades policiais já estão notando sinais no aumento do índice de suicídios. Econômicos, pois a grande maioria das pessoas ficaram sem poder trabalhar, perdendo seu emprego (no caso dos assalariados) ou sua fonte de renda (no caso dos autônomos). Políticos, pois todo um caos foi instaurado, com muitos prefeitos e governadores tomando medidas desproporcionais, contraditórias e autoritárias.

Em seguida, já com casos e óbitos confirmados no país, o presidente apontou a esperança no tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina, defendido principalmente pelo infectologista francês Didier Raoult, ele próprio uma personagem singular que frequentemente entra em rota de colisão com o “consenso científico” e os conglomerados farmacêuticos (cuja união é conhecida como Big Pharma).

A todas essas declarações de Bolsonaro seus (supostamente) subordinados se mostraram desfavoráveis. Principalmente o insuspeito vice-aspirante-a-presidente, Mourão, e o ministro da saúde, Mandetta (pintado pela imprensa como o grande herói da crise, em caso semelhante aos já citados). Ambos sempre fizeram questão de ressaltar a suposta necessidade de uma quarentena total e a restrição ao uso da medicação.

O ministro da saúde, aliás, se mostrou um dos pilares de sustentação da crise histérica que terminou por assolar a população: previsões iniciais de alto índice de contaminações e mortes, colapso total do sistema de saúde; após a realidade (essa ingrata) desmentir a previsão catastrófica, Mandetta mudou de previsão.

Como se tudo isso não bastasse, o ministro resolveu, por fim, adotar uma postura de afronta direta ao presidente. No último domingo Bolsonaro deu a entender que o demitiria, sensação aumentada por uma reunião ministerial realizada no final da tarde segunda. A demissão, no entanto, não aconteceu. Na noite de terça-feira veio mais um golpe frontal do ministro: disse em coletiva que negociaria com milicianos e traficantes.

Essa declaração traz um problema duplo: o menor é que o próprio presidente vem pedindo há dias uma saída para a quarentena total, o maior é que ao admitir negociações com criminosos o ministro afronta a bandeira principal de Bolsonaro, que é o combate incessante e inegociável ao crime.

No entanto, ao já não demitir o ministro na segunda-feira o presidente parece ter perdido o controle de seu próprio governo, sofrendo já no dia seguinte uma afronta ainda maior. Ou seja, antes da metade do seu mandato Bolsonaro foi engolido pelo sistema, ainda que não tenha sido corrompido pessoalmente.

Ainda há chão pela frente e não é momento de se desesperar (aliás, nunca é momento de se desesperar), no entanto é preciso que o presidente e seus apoiadores acordem e entendam a gravidade da situação. Olavo de Carvalho já advertia que seria inócua a eleição de um presidente mais alinhado aos anseios do povo antes de formarmos uma base cultural que o pudesse sustentar nos momentos mais difíceis.

Até o momento não consta que essa mensagem tenha sido captada por grande parte do povo.

ATUALIZAÇÃO 1 em 13/04/2020, às 14h: Este texto foi originalmente escrito no sábado (11/04/2020) e publicado domingo (12/04/2020) pela manhã. Ainda ontem, à noite, o ministro Mandetta concedeu entrevista ao “Fantástico”, na qual declarou: “Brasileiro não sabe se confia no ministro ou no presidente”. Aproveitou, também, para mais uma vez contrariar o desejo de Jair Bolsonaro de flexibilizar as regras de quarentena.

ATUALIZAÇÃO 2 em 13/04/2020, às 16h: o senhor Hananiah Reis fez uma observação que julgo necessário publicar aqui. O trecho da BR163 que foi totalmente asfaltado vai até o Porto de Miritituba – PA.

*Fernando Martins dos Passos.

Nenhum pensamento

  1. Quem tem Mourao como amigo, não precisa de ter inimigo, ele é mais falso que dólar boliviano, é A 2a, epidemia, o que todos esperávamos que ele fosse no patrão e pedisse as contas, é fosse embora. Pronto, fez ato muito feio, dentro de minha otic

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