Os gráficos do vírus chinês

Os gráficos do vírus chinês

Por Rildo Fausto Kops Neto

O leitor abre o jornal e lá está, estampado na capa, um gráfico contendo supostas informações sobre evolução da Sars-Cov-2, cujas linhas coloridas sobem e descem, traçando relações entre um determinado período de tempo em diferentes localidades; na matéria, algum especialista, cujo título importa mais do que o próprio nome, discorre sobre o pico e o achatamento, concluindo com previsões. Diz que “de acordo com a elevação da linha, em comparação com a curva de outro gráfico X, pode-se afirmar que o pico se dará em exatamente uma semana, quando provavelmente 5 milhões de pessoas morrerão e 203 milhões estarão contaminadas”. No mesmo dia, em um outro jornal (de grande circulação), um outro especialista, cujo nome dessa vez é encoberto pela sigla do instituto do qual faz parte, analisa os mesmos dados em cima do mesmo plano gráfico: “comparando esse gráfico agora com o modelo Y, dá pra concluir, sem dúvidas, que haverá um achatamento da curva, com prolongamento dos efeitos da pandemia, de maneira que deveremos permanecer em quarentena por mais 49 anos.”

Recordo do tempo em que me aventurei a operar os chamados minicontratos de dólar na Bolsa de Valores. As apostilas de Day-Trade¹ ensinam que se a figura gráfica² formada pelas últimas oscilações do preço do ativo formasse algo parecido com um jacaré comendo um condor, então o valor subiria – pode comprar tudo! -, mas não se confunda com um jacaré devorando um albatroz, porque isso significaria que o dólar despencaria, e você que comprou tudo perderia tudo e mais as taxas. Acho que larguei o negócio porque tive sérias dificuldades em diferenciar um condor de um albatroz.

De acordo com o dicionário Houaiss, gráfico em sua acepção mais comum significa “representação plana de dados, físicos, econômicos, sociais ou outros por meio de grandezas geométricas ou figuras; diagrama, curva”, enquanto estatística é definida como um “ramo da matemática que trata da coleta, da análise, da interpretação e da apresentação de massas de dados numéricos”. Observe-se que, em nenhum momento, suas definições sinalizam qualquer possibilidade de tratar eventos futuros a partir dos dados concretos. Dentro de estatística há, no máximo, a interpretação como fenômeno típico dessa experiência científica, o que significa que se pode traduzir para a realidade mais apreensível aquilo que apontou o resultado estatístico, nada além disso.

A ciência contemporânea, nesse venturoso andar, representada por adivinhadores, não tardará para escangalhar-se frente aos olhos dos mais ignorantes (e levará consigo a grande mídia, sua propaladora voraz). Análises gráficas são importantes para o estudo do presente e do passado, em especial para encontrar erros, a fim de que não sejam cometidos novamente. Contudo, previsões futuras baseadas puramente em movimento gráficos, embora devam ser consideradas em um debate mais amplo, não podem servir como critério único de um modelo que se pretende científico, tampouco os modelos computacionais mais modernos poderão apontar realmente o rumo das coisas, por três razões muito simples: a primeira é que nenhum sistema informatizado, por mais avançado que seja, é capaz de contabilizar as infindáveis variáveis da vida real, que mudam a cada instante; a segunda é que, mesmo que fosse possível elencar todas as variáveis, a vida não é matemática, e não se pode escapar da inevitabilidade da sorte e do acaso; e a terceira, primacial, é Deus, e é Ele que calca os trilhos por onde passará o trem, Senhor de todas as direções – e não o especialista que mal discerne entre um condor e um albatroz.

¹ Operações Day-Trade é o nome que se dá a uma modalidade de investimento na qual, a partir da análise de gráficos, tenta-se prever o movimento dos preços de um determinado ativo no curto prazo (mesmo dia); a partir dessa projeção, o investidor busca comprar e vender o determinado ativo no mesmo dia e auferir lucro com a operação.

² Os defensores desta modalidade de investimento teorizam que o comportamento dos preços dos ativos forma padrões gráficos identificáveis, batizados de acordo com a figura que parecem desenhar.

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