Educação, Trabalho e Religião – Parte 2

Por Fernando Passos e Thiago Reis de Oliveira

*Texto originalmente publicado em 30/05/2017.

Em continuidade à série de artigos sobre nossa cidade, hoje tratamos de trabalho, um dos eixos norteadores de Alta Floresta desde seu início. A relevância do tema é evidente por si. Em especial, chama-nos a atenção a conhecida preocupação, antes mesmo de nos tornarmos cidade, com a vocação econômica do local: o colonizador o vislumbrava uma potência agrícola.

Sabia que as condições físicas da região eram propícias à consecução do objetivo (solo fértil, sol, regularidade de chuvas), mas estava ciente, ao mesmo tempo, de que a principal condição do sucesso na empreitada se relacionava ao aspecto humano. Não à toa, focou na atração de pessoas e famílias advindas de regiões onde a agricultura era tradicional e obtivera êxito.

Este é um fato importante: ao menos no embrião da colonização, era o ser humano, com sua experiência pessoal tradicional, que agregaria valor à terra em que tudo precisava ser feito. Sem ele, nada valeriam todas as bênçãos naturais sobre a região. “Nada resiste ao trabalho”, dizia Ariosto da Riva com frequência. É o conhecimento de que a ação direcionada a um fim o torna realidade.

Ocorre que, é do conhecimento de todos, há quase quarenta anos temos nos deixado desviar o trajeto. O boom de outras atividades (garimpo, madeira, etc.) costuma acarretar este esquecimento vocacional. Não que o desenvolvimento em si dessas outras iniciativas tenha sido errado. O equívoco reside no abandono/menosprezo da atividade raiz em favor do ¨negócio do momento¨, cujo ciclo, quando chega ao final, sempre é acompanhado por um pessimismo contagiante.

Há de se aprender com as próprias experiências: não serão eventos externos os propulsores sólidos da economia local. Por exemplo, usinas hidrelétricas, obras logísticas para escoamento de produção, apesar de importantes, não definirão o rumo econômico. A solução para isso será encontrada internamente, observando-se a própria vocação e mantendo-se firme nela.

Ademais, a experiência tem revelado também que a busca rápida e fácil do dinheiro não traz desenvolvimento – ao contrário, produz apenas volatilidade e especulação. É o caso do garimpo e das famigeradas pirâmides financeiras.

Não existe atividade econômica salvadora da região. Ela deve ser construída pela população, que precisa se manter firme na própria vocação, sem desvios, mirando sempre adiante. Este comportamento demanda sacrifícios, tempo, persistência e busca pelo aprimoramento.

Dentre as atividades aqui desenvolvidas é notável que, apesar das recentes crises e incertezas que têm assolado todo o país, a pecuária de corte demonstra resiliência. Não se ignoram as dificuldades técnicas e mercadológicas constantemente enfrentadas. Mas essa capacidade de resistir aos piores momentos só reforça a sua importância. Por estas razões, não deve ser menosprezada. Ao contrário, merece ser mantida e desenvolvida em harmonia e integração com as demais atividades agrícolas, e não substituída por elas.

Qualquer ramo demanda tempo para ser apreendido, e com a agricultura – hoje o foco dos debates – não é diferente. Geralmente há um período de aprendizagem, no qual se perde não só tempo como dinheiro, o que é natural. Também devem consideradas as variações de ciclo de cada mercado e seus inúmeros desafios técnicos próprios. Por isso, o ideal não é a simples substituição de uma atividade por outra, mas a complementação das atividades.

Por fim, um esclarecimento: não se pretende com este texto apontar os caminhos definitivos que se devem seguir, nem palpitar sobre qual ramo da economia deve ser priorizado. Aliás, não é esse o objetivo dos três textos.

Assim como nos demais assuntos, pretende-se primeiro fazer uma análise objetiva da realidade, na tentativa de descobrir os elementos determinantes para que se chegasse à situação atual. Não há qualquer intuito aqui em apontar culpados (reais ou imaginários) para os erros que foram e continuam sendo cometidos.

A única preocupação é jogar luzes ao debate e contribuir de forma decisiva, sem dar espaço ao lugar comum de defender esta ou aquela corrente ideológica ou política. Pretende-se, a partir do resgate da experiência e da nossa tradição, auxiliar no desenvolvimento de uma cultura local, da qual a economia é apenas um dos elementos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.