Educação, Trabalho e Religião – Parte 3

Por Fernando Passos e Thiago Reis de Oliveira

*Texto originalmente publicado em 31/05/2017.

Finalizando a trilogia de artigos sobre Alta Floresta, o texto de hoje trata do assunto mais desafiador e propenso a gerar dissensos, se não for analisado com o devido cuidado: religião. Por questão de clareza e para evitar qualquer boato, é de bom tom informar que os autores são cristãos – respectivamente, católico e protestante.

A história de Alta Floresta – como a grande maioria das cidades brasileiras, se não todas – está atrelada à Igreja de Cristo. Aliás, seria impensável que isso não tivesse ocorrido, herdeiros que os brasileiros somos da civilização ocidental, com arraigada cultura judaico-cristã. Desde o início, e não por acaso, portanto, o colonizador de nossa cidade se empenhou em assegurar que o cristianismo fincasse raízes por aqui.

Não por acaso porque o elemento religioso/espiritual, refletindo os valores comuns a um povo, desperta nele os sensos de comunidade e pertencimento, algo indispensável para a própria formação da população e seu posterior convívio harmonioso. É fator essencial para sua união, e exemplos históricos disso são abundantes.

Para citar apenas um, que teve forte influência no desenvolvimento da civilização ocidental: após a queda do Império Romano a Europa se manteve unida (apesar das diferenças culturais e até mesmo linguísticas) em torno do catolicismo, que foi a pedra fundamental da resistência, inclusive, contra a invasão do islamismo durante a Idade Média.

Parênteses: é oportuno reforçar um dado que hoje costuma passar despercebido. O cristianismo é uma religião histórica. Isso significa que os fundamentos de sua fé não estão alicerçados em histórias da carochinha, mas em fatos, historicamente documentados e comprovados. Daí inclusive o poder e a força de seu legado. Estes autores não estão preocupados se estas linhas (des)agradarão um ou outro. O que os interessa é propor uma análise segura e confiável, cujo pressuposto básico é a observância à verdade e à narrativa fiel dos acontecimentos.

Retomando: Alta Floresta é, de forma notória, uma cidade eminentemente cristã. Justamente por isso, no entanto, também está sujeita aos mesmos ataques experimentados pelo cristianismo no país e no mundo. É oportuno esmiuçá-los (ao menos os principais) e colocar alguns pingos nos is. Indispensável se faz o conhecimento dos problemas para que, a partir disso, seja possível a reflexão em como solucioná-los.

Sobretudo nas democracias, um dos ataques mais comuns ao cristianismo é representado pelo argumento de que o Estado é laico. No caso do Brasil, e de vários outros, de fato é. Mas essa condição nada tem a ver com a noção de um Estado ateu, o que, por sua vez, nosso país definitivamente não é.

O laicismo [melhor dizendo, a laicidade] apenas significa que há separação entre Religião e Estado. Representa a ideia de que este não pode impor a prática oficial daquela, qualquer que seja. Isso não é nenhuma novidade, muito menos para os cristãos, já que tal conceito está ele mesmo fundamentado na Bíblia: “Dizem-lhe eles: De César. Então Ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21).

Ademais, é oportuno esclarecer que laicismo não é sequer condição para a existência da democracia (aqui como o oposto do autoritarismo). Recorde-se o caso da Inglaterra, por exemplo, onde o anglicanismo é a religião oficial, embora haja liberdade religiosa plena.

O ponto é: um Estado laico democrático não repudia a religião (quem faz isso é um Estado ateísta). Ao contrário! Reconhece sua importância, tanto que adota mecanismos de punição contra quem ofendê-la. Isso porque sabe que os valores de uma sociedade são anteriores e superiores ao próprio Estado. Por conta disso, pressupõe que, se de um lado não há espaço para a adoção de uma crença oficial, tampouco é razoável exigir que o indivíduo abra mão de suas convicções para exercer os atos da vida civil.

Explicitado o primeiro ataque mais comum, avança-se ao segundo.

A unidade de uma sociedade em torno de ideais metafísicos, espirituais, é a única forma eficaz de resistência contra governos totalitários. Essa conclusão não é de nenhum papa, líder evangélico ou qualquer outro religioso, mas dos maiores tiranos sanguinários da história, como Adolf Hitler e Josef Stálin.

Inimigos do judaísmo e do cristianismo, eles perceberam que, para atingir seus objetivos autoritários, era imprescindível destruir a religião (que na sequência seria substituída pelo culto ao Estado e ao líder do Partido). E colocaram a monstruosidade em prática.

No caso do nazismo, não apenas os judeus foram perseguidos. Milhares de Testemunhas de Jeová foram enviados aos campos de concentração e câmaras de gás simplesmente por se recusarem dar a Hitler o tratamento de mein führer (meu líder).

Os comunistas, por sua vez, focaram os ataques à Igreja Católica, de diversas formas. A mais eficaz, valendo-se da estratégia gramsciana (baseada na obra de Antonio Gramsci) de infiltração e destruição dentro da própria instituição. Isso ocorre até hoje.

Cientes de que a revolução comunista à força, pelas armas, invariavelmente fracassaria, em meados do século XX adotaram o método da revolução cultural, um cavalo de tróia que, implantado no seio do inimigo (no caso, a Igreja), subjuga-o silenciosamente. É a origem da teologia da libertação (a esse respeito, com riqueza de detalhes e documentos, o livro “Desinformação”, do Tenente-General Ion Mihai Pacepa, ex-chefe de espionagem romeno-soviético).

As tentativas de destruição do cristianismo tem avançado a passos largos (e veja que nem se tratou aqui, por falta de espaço, do problema da islamização do ocidente), diante da passividade dos fiéis. A consequência inevitável disso, e é possível percebê-la diariamente, é o aniquilamento da família, primeiro e último refúgio do indivíduo. Nas palavras do mestre Olavo de Carvalho: “a família sempre foi um foco de rebeldia ao Estado, de resistência”. Não por acaso, observe o leitor, existam hoje tantas agendas abortistas, relativizadoras do conceito de família, e por aí vai.

Não bastassem as referidas forças negativas externas, a respeito das quais alertamos, eis que aspectos desconhecidos pelos fiéis, não se podem relevar, por fim, os efeitos devastadores da briga entre católicos e protestantes, que tem facilitado o trabalho daquelas.

Isso tem acontecido em todo o país, e em Alta Floresta também, visivelmente. As divergências teológico-doutrinárias entre católicos e protestantes ultrapassaram as fronteiras do debate teológico, em um primeiro momento na forma de brigas pessoais, para em seguida serem pateticamente reduzidas à esfera das disputas político-partidárias.

O elemento religioso comum à maioria, fundante da civilização ocidental milenar de que somos herdeiros, tem deixado de ser parte da construção de uma comunidade para se tornar motivo de dissenso, enfraquecimento e autodestruição.

Temos vivenciado, pela história, que não precisamos de mais inimigos. Se ainda não há possibilidade de se vislumbrar consenso teológico a respeito do caminho para a salvação das almas, sejamos minimamente práticos e rápidos na busca pela solução do problema interno, por uma simples questão de sobrevivência.

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