Sua opinião é realmente sua?

O texto abaixo não é de minha autoria. É uma tradução de texto publicado originalmente no Twitter (em inglês), que pode ser acessado aqui.

Durante a Guerra da Coréia, soldados americanos capturados foram enviados a campos de prisioneiros de guerra geridos pela China Comunista. Os chineses tratavam os prisioneiros de forma distinta dos seus aliados norte-coreanos, que se valiam de punições violentas para garantir a submissão.

Os chineses aplicaram o que chamavam de “política de leniência”, ataques psicológicos sofisticados contra os prisioneiros. Após a guerra, psicólogos americanos estudaram intensamente os ex-prisioneiros devido ao inquietante sucesso do programa chinês.

Os chineses obtiveram grande sucesso em fazer os prisioneiros americanos se denunciarem mutuamente, diferentemente do que havia acontecido na II Guerra. Por essa razão, planos de fuga eram rapidamente descobertos e as tentativas geralmente frustradas. Quando havia uma fuga, os chineses geralmente conseguiam recapturar o fugitivo oferecendo um simples pacote de arroz a qualquer um que o denunciasse. Praticamente todos os prisioneiros americanos em campos chineses colaboraram com o inimigo de alguma forma.

Como os chineses conseguiram esse grau de submissão dos prisioneiros de guerra americanos? Estes homens eram treinados para revelar apenas seu nome, cargo e número de identificação. Sem tortura, como os captores esperavam obter desses homens informações militares, denúncias contra outros prisioneiros, ou declarações públicas contra seu próprio país?

O plano chinês era começar com pouco. Era pedido aos prisioneiros que fizessem declarações tão levemente anti-americanas ou pró-comunistas que elas pareciam inofensivas, tais como: “os Estados Unidos não são perfeitos”; “em um país comunista, o desemprego não é um problema”.

Uma vez que eles se submetiam a essas pequenas exigências, eram compelidos a se submeter a outras mais substanciais. A um homem que tenha concordado que os Estados Unidos não são perfeitos era solicitado que fornecesse alguns exemplos. Podia-se pedir-lhe que faça uma lista de “problemas da América” e que assinasse seu nome nesta lista.

Mais tarde, podia-lhe ser requerido que lesse essa lista em um grupo de discussão com outros prisioneiros. “Afinal, é o que você realmente acredita, não?” Posteriormente, poderia ainda ser-lhe pedido que escrevesse um artigo sobre sua lista, discutindo esses problemas em maiores detalhes.

Os chineses, então, usavam esse artigo anti-América assinado pelo prisioneiro em um programa de rádio transmitido não apenas para o campo de concentração em que este se encontrava, mas também para outros campos na Coréia do Norte, bem como para as tropas americanas que estavam na Coréia do Sul.

Repentinamente, este homem se descobriria um “colaborador”. Ciente de que havia escrito o artigo sem sofrer grandes ameaças ou coerções, o homem mudaria a imagem de si mesmo para ser coerente com seus atos e com o novo rótulo de colaborador, o que resultava em atos mais extensivos de colaboração.

A maioria colaborava com coisas que pareciam triviais ou inofensivas, mas que os chineses sabiam transformar para proveito próprio. Isso era particularmente eficaz para provocar confissões, auto-críticas e obter informações durante interrogatórios.

A maioria dos homens acreditava na história chinesa de que os Estados Unidos haviam promovido uma guerra biológica, e muitos sentiam que haviam iniciado as agressões que resultaram na guerra. Algumas incursões semelhantes foram feitas acerca das atitudes políticas dos prisioneiros: muitos expressavam antipatia aos comunistas chineses, mas, ao mesmo tempo, concordavam que eles “haviam prestado excelentes serviços para a China”. Outros concordavam que “embora o comunismo não funcione na América, era uma coisa boa para a Ásia”.

Nossas melhores evidências sobre o sentimento de outro homem não são suas palavras, mas suas ações. O que os chineses percebiam é que o homem usa esse mesmo raciocínio para decidir o que pensa de si próprio. Um homem observa seu comportamento para entender suas crenças e valores.

Escrever era uma dessas ações que os chineses estimulavam incessantemente seus prisioneiros a fazer. Não era suficiente o consentimento tácito ou mesmo a concordância verbal, eles sempre forçavam o consentimento escrito. O psicólogo Edgar Schein descreve esta tática: uma técnica adicional era pedir a um homem que escrevesse uma pergunta e, em seguida, a resposta pró-comunista. Caso ele se recusasse a escrever voluntariamente, era-lhe solicitado que copiasse a resposta de algum livro ou caderno, o que pode soar como uma concessão suficientemente inofensiva. Mas, ah, essas concessões “inofensivas”.

Concessões aparentemente insignificantes podem conduzir a comportamentos extraordinários. Uma declaração escrita é uma evidência física do seu comprometimento, que não deixa oportunidade para esquecimento ou negação o que foi feito. O ato irrevogavelmente documentado o impele a construir uma auto-imagem coerente e consistente.

Temos uma tendência a achar que uma declaração reflete a atitude real da pessoa que a fez, mesmo se soubermos que não decidiu fazer aquilo livremente. A menos que haja forte evidência contrária, observadores automaticamente assumem que quem faz uma declaração acredita naquilo.

Pense agora no duplo efeito na auto-imagem de um prisioneiro que escreveu uma declaração pró-China ou anti-América. Não apenas aquilo se transforma em uma recordação duradoura de suas ações, como também é altamente provável que seja suficiente para convencer aqueles a sua volta de que a declaração reflete suas opiniões verdadeiras.

Outra técnica similar consistia em criar concursos de redação sobre política nos campos. Os prêmios para os vencedores eram geralmente pequenos (alguns cigarros, algumas frutas) mas eram suficientemente raros para gerar interesse.

Geralmente as redações vencedoras traziam posições pró-comunistas, mas nem sempre. A maioria dos prisioneiros não queria entrar em um concurso que exigia a confecção de um tratado comunista. Então, por vezes o vencedor era um escrito que apoiava os Estados Unidos, mas fazia alguma concessão ao ponto de vista chinês.

Neste caso, os prisioneiros participavam voluntariamente porque achavam que podiam vencer escrevendo uma redação favorável a seu país. Talvez sem perceber, eles começavam a adotar um tom levemente favorável ao comunismo para ter chance de vencer. Os chineses queriam a participação do maior número possível de americanos para que, no processo, escrevessem coisas favoráveis ao comunismo. Se, no entanto, a ideia era atrair um número maior de participantes, por que os prêmios eram tão pequenos?

Eles escolhiam pequenas recompensas porque queriam que os homens se sentissem donos de suas ações, responsáveis por elas. Não havia desculpas ou saídas. Um prisioneiro que “enfeitasse” seu escrito com alguns comentários anti-América não poderia usar a desculpa de ter sido motivado por uma grande recompensa.

Não bastava espremer concessões daqueles homens; eles tinham que ser forçados a ter uma responsabilidade interna pelos seus atos. Nós aceitamos responsabilidade interna por um comportamento quando pensamos que o fizemos na ausência de fortes pressões externas.

As principais coisas para se entender:

1. Quando você se vê fazendo algo, você muda sua auto-imagem para “ser a pessoa que faz este tipo de coisa”.

2. Quando você pensa que os outros o vêem da mesma forma, o mesmo acontece.

3. Você irá sempre agir de forma consistente e coerente com sua auto-imagem.

À luz do que foi escrito acima, por favor considere como ser usuário das redes sociais, especialmente usando seu nome real, é estruturalmente igual a ser um prisioneiro num campo chinês.

Quando você endossa uma causa nas redes sociais as recompensas são desprezíveis. Recompensas minúsculas significam que você irá compreender suas declarações como livremente feitas, você será dono delas. Ainda assim, o olho público o pressiona a dizer coisas que são pró-social de uma forma muito particular.

A maioria das pessoas querem aparentar ter compaixão. Um slogan político, uma história de cortar o coração, essas coisas que você compartilha viralmente, elas mudam sua auto-imagem. E elas te deixam com evidências, evidências públicas, que você é o tipo de pessoa que se posiciona contra “opressões institucionalizadas”.

Redes sociais criaram o círculo vicioso que deixou todo mundo louco por fazer suposta justiça social. Assim como nos campos chineses, a pressão sutil mas constante para fazer declarações morais baratas resultou em conversões em massa. Creio que essa seja a causa para o grande “awokening”.

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