“Porque tu és pó e ao pó tornarás”

Padre Antônio Vieira, religioso, escritor e orador luso-brasileiro do século XVII.

Neste importante dia de reflexão, fiquem com uma pequena, mas significativa parte de um Sermão da quarta-feira de cinzas¹, do grande padre Antônio Vieira:

"(...) perguntar-me eis, e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó; em que nos distinguimos uns dos outros? (...) Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz: Hic jacet. Estão essas praças no verão cobertas de pó: dá um pé de vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que fazem os vivos, e muito vivos. Não aquieta o pó (...); anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; (...) tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, (...) tudo penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. E que pó, e que vento é este? O pó somos nós: Qui pulvis es: o vento é a nossa vida: Quia ventus est vita mea [Jó 7:7]. Deu o vento, levantou-se o pó: parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado; estes são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído; estes são os mortos. (...) os vivos pó com vento, por isso vãos; os mortos pó sem vento, por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra. Nem cuide alguém que é isto metáfora ou comparação, senão realidade experimentada e certa. Formou Deus de pó aquela primeira estátua, que depois se chamou corpo de Adão. Assim o diz o texto original: Formavit Deus hominem de pulvere terrae [Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra - Gn 2:7]. A figura era humana, e muito primorosamente delineada; mas a substância, ou a matéria não era mais que pó. Chega-se pois Deus à estátua, e que fez? Inspiravit in fatiem ejus [e soprou em suas narinas o fôlego da vida - Gn 2:7]: Assoprou-a. E tanto que o vento do assopro deu no pó: Et factus est homo in animam viventem [e o homem se tornou um ser vivente - Gn 2:7], eis o pó levantado e vivo; já é homem, já se chama Adão."

¹VIEIRA, Antônio. Essencial Padre Antônio Vieira. São Paulo: Penguim Classics Companhia das Letras, 2011, pp. 526-531.

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