COVID-19: o sucesso de Taiwan

No vídeo abaixo, Nuseir “Nas” Yassin explica resumidamente por que Taiwan é o país que teve o maior sucesso no combate à COVID-19.

Como se pode ver, o principal fator do sucesso taiwanês foi a rápida ação, contrariando as informações oficiais do governo chinês e da OMS (Organização Mundial de Saúde). Mas por que Taiwan agiu desta forma?

1 – Retrospectiva histórica

Primeiro é preciso olhar a história deste pequeno país asiático. Fazer um resumo histórico pode ser uma armadilha para a simplificação exagerada, mas ainda assim é possível olhar brevemente para acontecimentos do século XX para se obter uma breve ideia do cenário atual.

Oficialmente o nome do país não é Taiwan, e sim República da China, que se separou da parte continental (hoje República Popular da China) na metade do século XX, após a derrota do governo nacionalista de Chiang Kai-Shek e a ascensão do regime comunista de Mao Dzedong (ou Mao Tsé-Tung). Após a derrota, Kai-Shek mudou-se para Taipei (a qual ele chamava de “capital da guerra”), na Ilha de Formosa, a cerca de 180km da costa da China continental.

Desde o tempo de Mao o governo da China continental nunca admitiu essa separação, e considera Taiwan uma província rebelde, que deve voltar ao comando central. Até hoje pouquíssimos países reconhecem Taiwan como nação independente, e geralmente mantem relações diplomáticas extra-oficiais.

O primeiro país a reconhecer esse status foi a Santa Sé ( ou Vaticano¹), em 1952, no pontificado de Pio XII. Hoje, os países que reconhecem a independência taiwanesa, além do Vaticano, são: Suazilândia, Belize, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, Ilhas Marshall, Nauru, Palau, Tuvalu.

Como se pode perceber, são países com pouca (ou nenhuma) relevância no cenário geopolítico mundial. Mas por que poucas nações reconhecem Taiwan? A questão é complexa, mas um dos pontos é que esse ato significa o rompimento formal das relações diplomáticas com a República Popular da China, segunda maior economia do mundo.

1.1 – A disputa entre Chiang Kai-Shek e Mao Dzedong

Chiang Kai-Shek foi um líder militar chinês da revolução que derrubou a dinastia Qing, em 1911, transformando a China em uma república (importante: não confunda república com democracia). Com a queda do regime imperial teve início uma série de conflitos internos entre os senhores das províncias. Demorou algum tempo até que houvesse um governo central estável, resultado que não foi obtido sem o emprego de violência.

Puyi – Último Imperador da China, da dinastia Qing.

Kai-Shek assumiu o comando do Partido Nacionalista (e, consequentemente, do país) em 1925. Em seguida expulsou os membros comunistas do partido, que então fundaram o PCC – Partido Comunista Chinês. Teve início uma Guerra Civil na China, que foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial, período em que os dois partidos se aliaram para combater, principalmente, o Japão. Com o fim da Grande Guerra o conflito civil foi retomado e, em 1949, os nacionalistas foram derrotados pelos comunistas e expulsos da China continental. Foi então que Kai-Shek transferiu sua capital para Formosa (Taiwan), onde morreu no ano de 1975.

À esquerda, Chiang Kai-Shek; à direita, Mao Dzedong.

Não é o caso aqui de santificar Kai-Shek, nada leva a crer que ele fosse um líder democrático, defensor dos direitos individuais. Mas é certo também que seu modelo de gestão autoritário de matiz militar respeitava muito mais as liberdades individuais do que o regime implantado por Mao. Tanto é assim que enquanto atualmente a República Popular da China é um país de partido único, o PCC (conforme explicado aqui), a República da China (Taiwan) é uma democracia multipartidária, com parlamento aberto, e que reconhece o direito a voto de todos os cidadãos, obtendo um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,885, considerado muito alto. Além disso, sabe-se hoje que o governo de Mao foi responsável por, no mínimo, a morte de 50 milhões de chineses.

2 – Taiwan após a separação

Entre 1960-1990, Taiwan, juntamente com Hong Kong, Coréia do Sul e Singapura passou a apresentar altas taxas de desenvolvimento industrial e comercial, o que os fez receber a alcunha informal de “tigres asiáticos”. É verdade que grande parte deste desenvolvimento se deve ao investimento maciço dos Estados Unidos e, em menor escala, do Japão nestes países. Política que foi adotada como forma de fazer aliados na região de influência russo-chinesa.

Felizmente para esses países os avanços econômicos foram acompanhados pelo desenvolvimento cultural de suas populações, que hoje desfrutam de índices de prosperidade e liberdade em alto grau. A exceção é Hong Kong, que em 1997 voltou a fazer parte da China (contra a vontade de seus habitantes), mas esse é assunto para outro momento.

Além da antiga guerra civil que resultou na separação do país chinês, Taiwan sempre buscou aproximação com os Estados Unidos e o Japão, e esses fatos somados fazem com que sua relação com Pequim seja bastante complicada.

Por esta razão, os taiwaneses mantem sempre uma postura muito defensiva e desconfiada em relação a seus vizinhos-irmãos. Como já citado no vídeo acima, foi um dos primeiros países a suspender os vôos para Wuhan, ainda em dezembro/2019, quando poucos prestavam atenção ao problema. Foi esta desconfiança de que a China sempre está escondendo algo importante que permitiu a Taiwan implementar as medidas que hoje se mostram absolutamente acertadas.

No entanto, mesmo com todos esses fatos há uma enorme resistência da OMS e da ONU em reconhecer o sucesso taiwanês. Tudo leva a crer que isso se dá em função das ameaças chinesas.

Em março deste ano um membro da OMS (Organização Mundial da Saúde), Bruce Aylward, em entrevista para o canal de televisão de Hong Kong Channel 152 se recusou a responder a uma pergunta relacionada ao sucesso que Taiwan obteve no combate à doença. Em seguida se recusou também a responder se a OMS consideraria a inclusão de Taiwan em seu quadro de países membros. Irritado, o burocrata encerrou a entrevista.

Já em abril foi a vez do presidente da OMS, Tedros Adhanom (acusado de abafar dois surtos de cólera quando era Ministro da Saúde da Etiópia), se recusar a responder à mesma pergunta, feita por um repórter do canal japonês NHK.

Talvez Taiwan possa servir de exemplo ao ocidente sobre como se deve lidar com a China. É possível manter relações diplomáticas e comerciais sem se submeter a todas as imposições chinesas, além de ser sempre recomendável ter cautela ao tratar com uma potência que detém vasto histórico de atrocidades contra a própria população.

1 – Oficialmente o Vaticano é um país, um estado independente, ainda que encravado no território italiano (mais especificamente dentro da cidade de Roma). O Papa, além de líder espiritual da Igreja Católica, é também o chefe de estado do Vaticano.

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