O fato é verdadeiro, mas a notícia é falsa¹
O vídeo abaixo tem circulado recentemente pelo Whatsapp. É o trecho de uma reportagem que relata a prisão de Charles Lieber, professor da Universidade de Harvard (uma das mais importantes dos Estados Unidos), acusado pelo DOJ – Department of Justice (órgão americano similar ao Ministério Público Federal) de ter mentido sobre suas relações com a Universidade de Tecnologia de Wuhan, na China. A investigação inclui ainda a tenente do Exército de Libertação Popular da China e membro do Partido Comunista Chinês, Yanking Ye, e o pesquisador Zaosong Zheng (acusado de ter roubado 21 amostras de material de pesquisa do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, e tentado levá-los à China). A nota oficial do DOJ pode ser conferida aqui.
Curiosamente, ao se pesquisar pelo nome do professor no mecanismo de busca do Google os resultados que apareceram têm todos título semelhante (“É falsa a notícia que professor de Harvard foi preso por fabricar e vender coronavírus à China”). Praticamente todos os resultados são de sites de “Agências de verificação dos fatos”. Para conseguir mais detalhes acerca do caso (inclusive a nota oficial do DOJ acima) é necessário acessar a versão em inglês do Google.
Qual é, então, a notícia falsa? Se você assistir com atenção ao vídeo notará que em momento algum há menção de que Lieber fabricou o coronavírus. A acusação é a de que o Partido Comunista Chinês o teria contratado por valor muito elevado (50.000 dólares mensais entre 2012 e 2017, mais 158.000 dólares de ajuda de custo) para que servisse ao governo chinês, tudo isso enquanto participava de pesquisas estratégicas ligadas à segurança nacional em uma universidade americana.
O ardil aqui é bastante sutil: as “agências verificadoras” imputam falsamente uma informação que não está na notícia original, a de que Lieber fabricara o coronavírus. O leitor mais desatento vai conferir este dado e de cara considerar toda a notícia como sendo falsa. E é justamente aqui que reside o problema.
Ora, que um professor de uma grande universidade que tem acesso a dados sensíveis sobre segurança nacional seja acusado de cooperar com um governo estrangeiro é, por si só, coisa muito grave. Ao criar uma falsa narrativa de que a acusação seria sobre a fabricação do coronavírus, apenas para desmenti-la, as “agências verificadoras” falsamente colocam em cheque a credibilidade da reportagem em si, fazendo com que o leitor desconsidere todas as graves acusações ali contidas.
Com receio de ter sido vítima de “fakenews” o leitor irá agora passar a desmentir o suposto boato e tranquilizar seus contatos, pois é mentira que Lieber tenha fabricado e vendido à China o coronavírus. Ocorre que não foi isso que a reportagem informava, e não foi isso que o DOJ reportou.
Infelizmente, essa é uma estratégia muito comum nos tempos atuais: inventar que seu opositor disse algo que, em verdade, ele nunca disse (ou seja, criar um espantalho) para em seguida desmenti-lo. O expediente vale a pena porque, a partir daí, o emissor da mensagem gastará um precioso tempo tendo que desfazer a mentira criada. Nesse período a informação original perderá todo o peso e importância e as atenções serão voltadas a outros assuntos. Esse desfecho foi, desde o início, desejado pelo “caçador de fakenews“.
Fernando Martins dos Passos
1 – Artigo baseado no homônimo de Nassim Nicolas Taleb, The Facts are True, the News is Fake: https://medium.com/incerto/the-facts-are-true-the-news-is-fake-5bf98104cea2
Parabéns pelo artigo. Em tempos de desinformação é importante enaltecer o jornalismo compromissado com a verdade.
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Excelente artigo, parabéns!
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